Vale dos Vinhedos

Casa de ferreiro, espeto de pau. Enquanto arquitetava mentalmente este artigo, este ditado não saía da minha cabeça. Ao longo dos últimos anos estudando vinhos, tive a oportunidade de visitar várias vinícolas em diferentes países e regiões, mas permanecia conhecendo pouco o meu próprio país. Pois bem, problema resolvido! Em um enoturismo com a família pelo Vale dos Vinhedos e Pinto Bandeira, visitei sete vinícolas ao longo de quatro dias e compartilho com vocês um pouco do que vi por lá.

Casa Valduga

Quando eu e minha esposa casamos, escolhemos um espumante da Casa Valduga para animar nossa festa. Encontramos à época um fornecedor que nos fez um preço bem especial: R$18 a garrafa do Arte Tradicional Brut (bons tempos aqueles). Com isso, foi possível fazer um agrado aos nossos convidados e, podemos dizer assim, garantimos que todos saíram da festa bem animados. Acabaram sobrando algumas garrafas e bebericamos espumante cotidianamente ao longos dos primeiros meses de lua-de-mel. Qualquer situação era motivo para abrirmos uma garrafa, exatamente do jeito que deve ser, não é verdade? Impossível não dizer que a Casa Valduga se tornou um produtor especial para nós e colocamos eles como nossa primeira parada.

De todas as vinícolas visitadas, a Casa Valduga é a que tem maior estrutura: prédios suntuosos, linha de produção impressionante, cave à perder de vista e serviço de visitação corporativo (diversos horários, time especializado). Como já devo ter dito em algum outro artigo aqui do blog, nenhuma visita à vinícola é igual a outra. E o que aprendi depois de dezenas de visitações é que a beleza está no equilíbrio. Se por um lado uma grande vinícola é exatamente o que muitos enoturistas querem, por outro perde-se a magia de poder conhecer a família produtora, conversar com os enólogos que de fato elaboram o vinho e, se você tiver sorte, até participar de uma parte do processo. Portanto, fica a dica: no planejamento de uma viagem de enoturismo, tente mesclar visitas à grandes e pequenos produtores, e curta o que cada um tem de melhor a oferecer.

Cavaletes de rémuage

A visitação começou, na verdade, pelo restaurante. Agendamos um almoço no rústico, porém elegante, restaurante Maria Valduga, que serve um rodízio de pratos tradicionais da cozinha colono-italiana da região. Este tipo de serviço é bem comum no Vale dos Vinhedos e Bento Gonçalves e há diversas opções de restaurantes e preços para escolher. A visitação propriamente dita seguiu um roteiro que parece não estar mais disponível no site da vinícola (Wine Experience), mas certamente muito do que irei descrever continua presente nas atuais opções de visitação. Fomos em um daqueles carrinhos de golfe até a adega de produção, onde é explicado um pouco do processo de produção e onde pudemos degustar alguns vinhos direto dos tanques de inox. De volta ao carrinho, fomos levados ao grande prédio principal do complexo da vinícola que serve, entre outras coisas, de adega de envelhecimento, onde pudemos ver as fileiras sem fim de espumantes repousando nos cavaletes de rémuage (se o termo é grego para você, esse artigo aqui pode ajudar). A maioria dos espumantes da vinícola são produzidos pelo método tradicional, ou champenoise, e a visitação possui diversos elementos que explicam o método de forma didática e ilustrativa. Ao longo do passeio pelas barricas de envelhecimento, há paradas para degustar alguns vinhos brancos ainda nos barris, vinhos que receberão o licor de tiragem e vão se tornar espumante na garrafa. Outras degustações acontecem enquanto caminhamos pelo mar de garrafas, a maior parte destas provas de rótulos da linha Gran, de espumantes mais refinados com 60 meses de envelhecimento na garrafa (autólise das leveduras). Em certa parte da visitação é possível ver uma garrafa ainda contendo as leveduras que, para fins didáticos, se apresentam em grande quantidade. Sem dúvida uma forma bem prática para gerar o questionamento nos novos amantes dos espumantes: como as leveduras são retiradas da garrafa?

A resposta para o questionamento que acaba de nascer no atento visitante é dada logo na sequência da visita, onde é possível ver uma parte do processo produtivo, incluindo as máquinas de dégorgement (mais detalhes no mesmo artigo citado anteriormente). Como a maioria das visitas à grandes vinícolas, ela termina na lojinha, tornando quase impossível não adquirirmos alguns dos rótulos que acabamos de saborear. Um aspecto bem interessante da lojinha da Cada Valduga é a possibilidade de realizar provas adicionais, oportunidade bem interessante para conhecer ainda mais o portfólio da vinícola. Um dos rótulos disponíveis à época da minha visita era o Sur Lie, rótulo bem peculiar que está fazendo bastante sucesso no mercado. Digo peculiar porque ele pode ser considerado um “dever de casa” após toda a aula sobre a produção do espumante seguindo o método tradicional. O Sur Lie é um espumante que não sofre dégorgement, ou seja, as leveduras não são retiradas da garrafa, conferindo à bebida um aroma e sabor de fermento e uma maior textura. Como as leveduras não são retiradas, o licor de dosagem também não é adicionado, fazendo com que o espumante seja bem seco, nada adocicado. Na escala de doçura dos espumantes, o Sur Lie se encaixa na categoria “nature”, abaixo do amplamente disponível no mercado “Brut” e até mesmo do “Extra Brut”. Com tantos elementos técnicos e tantos detalhes para compartilhar com os amigos enófilos em uma única garrafa, não é realmente um “dever de casa”?

Casa Valduga Espumante Gran Extra Brut 2011

Espumante Casa Valduga Sur Lie Nature

Cristofoli

A visitação à Cristofoli representa a essência do que citei no começo deste artigo: a melhor forma de planejarmos uma viagem de enoturismo é mesclando grandes e pequenos produtores. A visitação à Cristofoli é uma experiência diametralmente oposta à visitação à Casa Valduga. Com exceção do ponto comum, devo dizer: os ótimos vinhos.

A Cristofoli é uma pequena vinícola operada (leia mão na massa) pela família fundadora. Fui recebido na sala de degustações pela Bruna, filha de um dos fundadores, que conduziu uma agradável e pessoal degustação dos principais rótulos da vinícola. Longe do grande movimento de uma grande vinícola e, por mais que bem treinados e simpáticos, de seus guias turísticos, conversar com quem de fato vive a produção, as dores e alegrias das safras, com quem planeja o estilo dos vinhos e quem ainda tem que se desdobrar para fazê-los chegar à casa dos consumidores, faz toda a diferença.

A vinícola oferece uma série de “experiências”, desde apenas a degustação dos vinhos até uma visita guiada pela propriedade, passando por opções de caminhada e pic-nic.

Olha a Bruna aí

Sala de degustação

 

Tour Vinho e Paisagem

Vinhos degustados:

  • Moscato de Alexandria
  • Chardonnay 2017
  • Sangiovese 2016
  • Merlot 2015
  • Cabernet Sauvignon 2015
  • Espumante Brut

 

DO VALE DOS VINHEDOS

O Vale dos Vinhedos foi a primeira indicação geográfica reconhecida do Brasil. Em 2002 obteve do INPI o registro de Indicação de Procedência (IP) e, em 2012, foi reconhecida como Denominação de Origem – a primeira DO de vinhos do Brasil.

Detalhes da DO:

  • A produção de uvas e a elaboração dos vinhos ocorrem exclusivamente na região delimitada do Vale dos Vinhedos, uma área de 72,45 km2 localizada nos municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul.
  • Existem requisitos específicos para de cultivo dos vinhedos, produtividade e qualidade das uvas para vinificação.
  • Os espumantes finos são elaborados exclusivamente pelo “Método Tradicional” (segunda fermentação na garrafa), nas classificações Nature, Extra-brut ou Brut.
  • Para os espumantes, as uvas Chardonnay e/ou Pinot Noir são de uso obrigatório.
  • Nos vinhos finos brancos, a uva Chardonnay é de uso obrigatório, podendo ter corte com a Riesling Itálico.
  • O uso da uva Merlot é obrigatória para os vinhos finos tintos da DO, os quais podem ter cortes com vinhos elaborados com as uvas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Tannat.
  • Os produtos que passam por madeira envelhecem exclusivamente em barris de carvalho.
  • Para chegar ao mercado, os vinhos brancos passam por um período mínimo de envelhecimento de 6 meses; no caso dos vinhos tintos são 12 meses; os espumantes finos passam por um período mínimo de 9 meses em contato com as leveduras, na fase de tomada de espuma.
  • Os vinhos apresentam características analíticas e sensoriais específicas da região e somente são autorizados para comercialização os produtos que obtenham do Conselho Regulador da DO o atestado de conformidade em relação aos requisitos estabelecidos no Regulamento de Uso.

Fonte: Embrapa (https://www.embrapa.br/indicacoes-geograficas-de-vinhos-do-brasil/ig-registrada/do-vale-dos-vinhedos)

Para saber mais sobre Denominações de Origem, o artigo “Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade” aqui do blog explica o tema em mais detalhes.

Família Geisse

Considero o Cave Geisse um dos melhores espumantes nacionais, por isso, visitar a vinícola era programa obrigatório no roteiro. A propriedade não fica situada no Vale dos Vinhedos propriamente dito e sim em Pinto Bandeira, um município bem próximo que integra a Indicação de Procedência (IP) Pinto Bandeira, primeira etapa para se chegar a uma nova Denominação Geográfica na região. A propriedade possui 25ha plantados entre 300 e 700m de altitude. Da propriedade em Pinto Bandeira se produz apenas espumantes, todos safrados. Ao longo da degustação que tivemos o prazer de realizar, acabamos descobrindo que a família possui também produção no Chile, no Valle Colchagua, de onde sai lindos brancos e tintos.

Nossa visita aconteceu em uma manhã fria e chuvosa, mostrando um pouco do clima encontrado em regiões propícias aos espumantes. O clima fresco é essencial para ajudar as uvas a amadurecem completamente sem atingirem um nível elevado de açúcar, porém mantendo um nível elevado de acidez. Nosso tour começou pela adega, onde o processo de produção dos espumantes da propriedade foi explicado, enquanto caminhávamos pelos tanques de inox. Na sequência visitamos a adega de envelhecimento onde, como na Casa Valduga, pudemos ver as garrafas realizando a segunda fermentação nos cavaletes de remuage. Por fim, o momento mais gostoso das visitas, a degustação, quando a simpática funcionária da vinícola nos conduziu pelos detalhes da produção de cada rótulo, assim como pelas características marcantes de cada um.

Em comparação com as demais visitações, diria que a visita à Família Geisse se encontra em um escala mediana: não se trata de um grande complexo, como na Casa Valduga, mas também nada tão pessoal como na Cristofoli. E, justificando a opinião de que cada visita possui um aspecto único, a Família Geisse apresenta um aspecto particular: a possibilidade de visitarmos o seu vinhedo. Finalizada a visitação, tivemos a oportunidade de fazer um tour de carro pelos vinhedos da propriedade, que ficam localizados em uma maior altitude comparado ao prédio principal, onde toda a visitação acontece. As lúdicas fileiras de videiras se estendem de forma organizadas e padronizadas, mostrando o esmero da família na produção de seus espumantes. Tivemos a oportunidade de caminhar pelas parcelas que geram um dos principais espumantes nacionais, que geram alguns dos rótulos que contribuem para elevar o espumante nacional à uma categoria de destaque no cenário mundial.

Nova geração do Blog Terroirs já aprendendo como o mundo do vinho é divertido

🙂

Vinhedos da Família Geisse

Vinhedos da Família Geisse

Vinhedos da Família Geisse

Vinhos degustados:

  • Extra Brut
  • Blanc de Noir
  • Terroir Rosé
  • Carménère
  • Cabernet Sauvignon

Almaúnica

O elegante e moderno prédio da Almaúnica fica situado ao final de um caminho de pedras que corta os vinhedos da propriedade, ornado de ciprestes nas laterais, gerando um típico panorama da Toscana. O lugar é de fato bem bonito, portanto vale abusar das fotos. O forte da visitação é a degustação, realizada em uma grande “sala de estar” assim que se adentra ao prédio. Até foi possível conhecer um pouco da adega em uma rápida visita gratuita, sem necessidade de agendamento, mas não espere nada muito elaborado. O foco da visita é realmente conhecer os principais rótulos da vinícola ao longo de degustações guiadas. Em uma agenda apertada, fica fácil encaixar a Almaúnica como aquela última visita do dia ou quando já se está cansado demais e a única coisa que queremos é descobrir novos rótulos de forma descontraída.

Vinícola Almaúnica

Pizzato

Até onde pude averiguar, a Pizzato não oferece visitas a seus vinhedos e adega. Assim como a Almaúnica, o foco é a degustação, realizada em um grande salão. Das vinícolas do Vale dos Vinhedos (ou seja, desconsiderando a Família Geisse em Pinto Bandeira) é a que fica mais afastada, mas ainda assim a cerca de apenas 20 minutos de carro de Bento Gonçalves, onde a maioria das pessoas se hospedam. Chegamos à vinícola por volta das 10h e a encontramos vazia, o que foi ótimo para podermos bater um bom papo com a funcionária que nos atendeu. Degustamos por volta de 10 rótulos e, com um pequeno acréscimo ao valor da degustação, pudemos degustar o DNA 99, rótulo que recebe o nome de uma histórica safra e ano de início de operação da vinícola.

Vinícola Pizzato

Linha Fausto

Linha de Espumantes Fausto

Pizzato DNA 99

Vinhos degustados:

  • Chardonnay 2017
  • Legno Chardonnay 2016
  • Tannat 2012
  • Merlot 2014
  • Cabernet Sauvignon 2013
  • Alicante Bouchet 2013
  • Egiodola 2013
  • Concentrus 2013
  • Vertigo Nature
  • Brut Rosé 2016
  • DNA 99 2012

Angheben

Esta pequena família produtora elabora seus vinhos e atende seus visitantes em um galpão situado perto da vinícola Almaúnica, a 150 metros da RS-444, estrada onde a maioria das vinícolas do Vale dos Vinhedos estão localizadas. O local é simples mas, assim como na Cristofoli, a visita proporciona a oportunidade de conversar com os donos e familiares, incluindo o Sr. Idalêncio Angheben, fundador da vinícola. O Sr. Idalêncio possui décadas de experiência na indústria e academia do vinho, tendo sido, inclusive, um dos primeiros funcionários da Chandon no Brasil. Bater um papo descontraído com profissional com tamanha notoriedade representa a essência do que os amantes de vinhos buscam no enoturismo: conhecimento, história e estórias.

Programa 30 Minutos entrevistando o Sr. Idalêncio Angheben

Lídio Carraro

Conheci a Lídio Carraro quando a vinícola patrocinou as Olimpíadas Rio 2016. Me lembro de ver o rótulo Faces dentre os demais produtos oficiais do evento e me espantar positivamente com o fato de, em um país com a cultura do vinho tão pouco desenvolvida, haver uma linha de vinhos como parte dos produtos promocionais. Visitando a vinícola pude conversar mais sobre o convite que a Lídio Carraro recebeu para produzir alguns rótulos que representassem o povo brasileiro e como esse tipo de iniciativa ajudou no desenvolvimento da cultura do vinho no país. A visitação segue a linha das últimas descritas aqui no artigo: foco na degustação de rótulos das principais linhas e nada de visitação ao vinhedo ou adega. A estrutura de acolhimento ao visitante não é grande, mas também é possível conversar com a família proprietária. Fui atendido pela simpática nora do Sr. Lídio Carraro, quem apresentou de forma entusiasta cerca de 10 rótulos. O mais pitoresco de todos foi o “Vinho da Rainha”, Dádivas Chardonnay, rótulo que ganhou este apelido por ter composto a adega da rainha da Inglaterra, Elizabeth II. Um interessante aspecto sobre a filosofia dos vinhos da Lídio Carraro é a busca pelos elementos essenciais da vinicultura, ou seja, os vinhos são elaborados com mínima intervenção, incluindo a ausência de madeira para envelhecimento e não adoção de técnicas e compostos para a correção de falhas.

Vinhos degustados:

  • Faces Chardonnay 2016
  • Faces Rosé 2016
  • Dádivas Chardonnay 2015
  • Agnus Cabernet Sauvignon 2016
  • Dádivas Tempranillo 2016
  • Elos Cabernet Sauvignon Malbec 2011
  • Elos Touriga Nacional Tannat 2012
  • Lidio Carraro Merlot 2008
  • Singular Teroldego 2010
  • Espumante Dádivas Brut